sexta-feira, 20 de março de 2009

Tradição

Por volta das 13h de hoje, liceístas organizavam manifestação em frente a escola (exatamente onde se encontra a pequena carroagem na foto ao lado, do séc. XIX). Motivo? O uniforme. Nos anos 90 houve algo parecido. O governo do Estado decidiu padronizar os uniformes da rede estadual, independente das escolas. A uniformização do uniforme, por mais redundante que pareça, de certa forma contribuiu para a perda da identidade de algumas escolas, e para a rotulação do aluno, que deixava de ser desta ou daquela escola, e passaria a ser identificado como aluno da rede pública de ensino.
Na época os estudantes do Liceu tinham acabado de alcançar uma conquista: o uniforme branco com calça jeans para o 3º. ano do Ensino Médio, que tinha um quê de hierárquico, tudo bem, mas também o significado do fechamento de um ciclo, um sabor de despedida, e um estímulo para os demais, que permaneceram com seus cinzas tradicionais que, independente de serem bonitos ou não, eram defendidos com orgulho por seus alunos, pois afirmava a identidade da escola centenária.
Nos anos 90 nós vencemos, mantivemos o nosso uniforme, assim como o IEPAM e o Nilo Peçanha, muito por conta da articulação de seus grêmios estudantis.

Hoje, mais uma vez a questão retorna. Um novo uniforme foi imposto à toda a rede, e mais uma vez os estudantes protestaram. Estenderam os uniformes no chão, em frente à escola, e gritavam: "Liceu é tradição, não é humilhação". Eu passava pela frente da escola e inevitavelmente, como liceísta, me misturei aos estudantes. Muito válida a sua manifestação, sua luta pela manutenção da identidade.
Porém, esse discurso da tradição contra a humilhação me soou um tanto perigosa: qual o significado desta tradição? Se for a idéia de identidade, tudo bem; mas se for a manutenção de um caráter elitista de segregação, onde o Liceu não pode se comparar às outras escolas da rede, acho complicado.
Espero que a luta se estenda para as outras escolas, e que seja possível acabar com a uniformização do uniforme. Que este seja um símbolo de distinção e identidade para todas as escolas, e não um rótulo para a rede pública de ensino.

domingo, 15 de março de 2009

habitus academicus - utilíssimo!!!

Temos vários cursos de ciências humanas em Campos (UFF, UENF, CEFET, FAFIC...), alguns com décadas de existência e outros novíssimos como os que acabam de chegar pela UFF, em seu projeto de expansão. No momento, muitos estão produzindo pesquisas que não chegam ao conhecimento do público. O objetivo do Prof. Dr. Eugênio Soares (UFF) no blog habitus academicus é justamente reunir informações sobre esta produção acadêmica na área de Ciências Humanas em nossa região. Vale a pena conferir.

Presidente da ANPOCS na UENF

Na próxima quarta-feira, 18 de março, a Dra. Maria Alice Rezende de Carvalho, atual presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS), estará no Centro de Convenções da UENF, às 9h, proferindo a aula inaugural de 2009 do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política e da graduação em Ciências Sociais da UENF. O tema será: "Os 20 Anos da Constituição Brasileira".
Uma ótima oportunidade para todos aqueles que se interessam pelas discussões acerca do pensamento social brasileiro.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Cumprindo o desafio

Recebi da Ana Paula um desafio, que ela, por sua vez, recebeu de um amigo. É mais ou menos assim:


No livro que tenho mesmo à mão (A Organização Nacional), Alberto Torres, na página 116, 5ª linha, a frase completa: "Demos terra a todos os homens válidos; instrução primária, a todos o que podem ver e ouvir; instrução secundária e superior, a todos os que são capazes, não a dando a nenhum que não o seja; educação social e profissional, também a todos; e não temamos o futuro. O brasil é um país destinado a ser o esboço da humanidade futura".
Frase oportuna e adequada, considerando-se ter sido escrita na década de 1910, a partir de um ponto de vista bastante conservador, mas que não deve ser de todo mal. Tivéssemos cumprido parte disso, teríamos de fato cumprido esse destino... Ou pelo menos mais próximos de cumprí-lo.

Desculpem não estar lendo nada mais belo e literário... são os ossos do ofício.

E o desafio segue para:

Jules Rimet

Rodrigo Manhães

Professora Hilda Helena

Gustavo Soffiati

Aucilene Freitas


Façam o mesmo! Peguem o livro que estiverem lendo, abram-no numa página qualquer e transcrevam o que estiver na quinta linha!!!

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Penha (Sobre Meninos e Lobos)

O bairro da minha infância não existe mais. Quando passo por lá me sinto um estranho no ninho. Não conheço mais as pessoas. Os velhos já se foram, muitas migrações ocorreram, o processo de ocupações desordenadas, loteamentos chamados “nova” isso ou “nova" aquilo, sem saneamento... os “casarões” daqueles mais abastados de minha infância (o dono da farmácia, o dono da mercearia...) agora estão tomados por limo e mofo, ocupados por estranhos.

As crianças do bairro da minha infância não brincam mais nas ruas. Não há mais aquele terreno baldio que, por um mutirão, foi transformado num campinho, onde memoráveis peladas ocorriam todas as tardes depois da escola. Muitos não frequentavam a escola, mas ali no campinho, todos se misturavam, sem problemas (o filho do dono da farmácia, do dono da mercearia, eu, e muitas outras crianças cujos pais não se sabia muito bem o que faziam, e certamente não eram donos de nada. Mas eram todos crianças, isso era o que importava). Hoje as crianças de lá são tristes e muitas. Tantas crianças que acabam parecendo todas iguais. São os filhos das crianças do bairro da minha infância. Não sei se têm carinho dos pais, se aprendem a não jogar lixo no chão, a respeitar os mais velhos, a serem honestos, justos, não sei se tomaram todas as vacinas, se pegaram caxumba ou sarampo, não têm mais campinho, não brincam de pique-bandeira, esconde-esconde, se catam os besouros debaixo dos postes, nem sei se brincam. Na verdade as vejo como mini-adultos abandonados, sem um mundo só seu, mas sim uma simplificação do mundo dos adultos. Não tem mais música infantil, programa infantil (de parque, de praça, de TV)... não têm armas de brinquedo, não vêem filmes de terror, não podem fazer nada (E são muito mais violentos que eu). Não podem ouvir um "não". Assim como as armas, não têm mais telefone de brinquedo, mas sim um celular de última geração, que toca música (num alto-falante de péssima qualidade, por sinal), tira foto (com uma péssima definição), é vara de pescar, canivete suíço, bote salva-vidas, e ainda por cima serve pra falar com alguém, mas no caso das crianças, não serve: geralmente é de cartão e não tem crédito ou mesmo não têm ninguém pra falar.

Depois, essas crianças do bairro da minha infância tornam-se jovens. Os jovens de lá me entristecem muito. Lá tem um lugar onde eu sempre ia quando estava triste ou alegre, quando estava sozinho. Passava horas, observando tudo ao redor, em paz. Hoje, só sinto tristeza. Tristeza e medo. Soube que o tráfico de drogas destruiu a vida da maioria das crianças do bairro da minha infância. Tinha um menino que morava em frente a minha casa, chamado Juninho. Juninho sabia fazer pipas (naquele tempo, não tinha essa história de comprar pipa pronta. O legal era confeccionar a sua própria.) e as pipas dele eram bem ágeis, pequeninas, boas para as acrobacias no ar. Ele fazia pipas pra mim e passávamos algumas horas no fim do dia, depois da minha escola (ele não estudava), soltando pipa. Era divertido. Depois, com o passar dos anos, na adolescência, Juninho foi trabalhar com o pai como ajudante de pedreiro; depois o pai largou a família; depois não vi mais Juninho. Tinha outro menino, “Fofão”, que tinha um irmãozinho franzino, um bebezinho que brincava com a gente na rua. Éramos meninos de 12, 13 anos, e o irmãozinho do Fofão devia ter uns 3, e de chupeta e fralda na mão, acompanhava a gente nas brincadeiras. Há muito tempo não vejo o “Fofão”, muito menos seu irmãozinho.

Hoje, visito o bairro da minha infância raramente, um domingo ou outro, pra almoçar com minha mãe. No último domingo ela ria das rugas em meu rosto, meus pés-de-galinha, e perguntou a minha mulher se eu não tenho usado creme anti-rugas. Eu tenho 30 anos, quase 31. Quando eu nasci, minha mãe tinha 43. Pra ela isso era um escândalo em 1978, afinal de contas, ela tinha uma filha que estava pra se casar e outra com 12 anos de idade. Como podia? A filha noiva, de casamento marcado, e ela, uma senhora de 43 anos (naquela época, à partir dos 40 você já era considerado velho), grávida! Ela conta que olhava pra mim quando criança e se perguntava se viveria pra me ver na escola. Ainda nos emocionamos com isso, sobretudo agora na minha luta de pós-graduação. E ela rindo das minhas rugas, dos pés-de-galinha daquele menino que ela temia abandonar cedo.

Eu fui à escola, mas os meninos do bairro da minha infância não. Alguns (poucos, talvez 3 contando comigo) conseguiram seguir nos estudos, cursar o ensino superior; alguns conseguiram se tornar policiais militares e hoje têm a difícil tarefa de perseguir seus colegas de infância, que jogavam pelada naquele campinho em belas tardes. Outro dia, o Ricardo*, que é PM, me contou que quem comanda o tráfico por lá é o irmão do “Fofão”. Lembram dele? O menininho franzino de 3 anos de idade, com chupeta e fralda? Pois é, hoje é conhecido como “Pão” e dizem que é um ótimo atirador. O Juninho, que fazia pipas pra mim, quase foi morto a facão dia desses. Motivo? Vingança, por estar envolvido na morte do principal traficante da área, disputando boca de fumo.

Soube disso tudo hoje, em minha casa, pelos pedreiros que reformam meu banheiro. Pedreiros que eram meninos do bairro da minha infância.


* Nome fictício

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Baile do Obama

Agora, 1h40min no Brasil, está ocorrendo um dos 10 bailes em comemoração a posse do 44º presidente estadunidense. Trata-se do baile da juventude, transmitido com exclusividade no Brasil pela MTV. O evento contou com show de vários artistas do mainstream norteamericano, como Rihanna, etc. Após rápido discurso, que identificou a juventude dos EUA como principal agente da mudança encarnada nele próprio, que inspirou gerações passadas a votarem em sua candidatura, o presidente dançou re rostinho colado com a primeira-dama, com direito a chavecos no pé do ouvido e beijinhos singelos, dançando na maior ginga dos negros americanos, dois jovens sorridentes. Obama ressaltou, acidentalmente parafraseando a oração de São Francisco de Assis, que onde imaginam guerra, é possível haver paz; onde imaginam a fome, há a possibilidade de crescimento. O presidente ressaltou mais uma vez, como fez em seu discurso de posse, a necessidade de solucionar o sério problema do sistema público de saúde norte-americano.
Tudo bem, tudo bem... eles são americanos, não dá pra esperar muito mais que isso. O Obama disse que é possível vencer os inimigos sem truculência, mas que a usará se for necessário. O tema deste baile, por exemplo, é o voluntariado, que atualmente é o máximo que os estadunidenses podem vislumbrar em relação a construção de um mundo mais justo. Fazer o quê?

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Obama já é presidente

Acaba de prestar juramento o 44º presidente dos EUA, Barack Obama. Neste momento, pronuncia seu discurso de posse, citando momentos importantes da história dos EUA. Reconheceu a crise, ressaltou pontos fortes da campanha e prometeu cumpri-los. Falou sobre a mudança na imagem do multilateralismo norteamericano.
Dirigiu-se aos países pobres, comprometendo-se a apoiar, e criticou a postura dos países desenvolvidos de utilizar os recursos naturais como se os pertencessem, assinalando que estamos em outros tempos.