quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Ainda bem que não é para sempre

A decoração de natal em Campos - RJ este ano traduziu com perfeição a estética do atual governo municipal. Em algumas praças da cidade a decoração natalina mais parece uma ressaca de carnaval, como se fosse a quarta-feira de cinzas, quando vemos espalhados pela cidade restos de fantasias, alegorias e carros alegóricos despedaçados. É isso que parece.
A praça do Liceu, um dos cartões postais de Campos, uma espécie de câmara do tempo que nos remete à virada do séc XIX para o XX, em cujos bancos li Machado de Assis, foi restaurada, coincidentemente, no governo (estadual) Garotinho. Foi um grande trabalho de restauração artística, o que difere muito de uma reforma pura e simplesmente, resgatando todos os aspectos originais não só do prédio da residência do Barão da Lagoa Dourada como também da praça, onde até mesmo os postes tiveram partes raspadas a bisturi, camada por camada de tinta, buscando a cor original; os bancos foram reformados com base em fotografias antigas; até mesmo a restauração do paisagismo foi cogitada à época, mas acabou não sendo viável.
Após a restauração a praça tornou-se um dos locais mais bonitos da cidade, serviu de cenário para os shows do projeto Jardim in Concert. Por lá pude assistir a shows de Jorge Mautner, Francis Hime, Sivuca, Carlos Malta e Lenine, Leo Gandelman, Pedro Luís e a Parede, entre tantos outros grandes nomes da MPB.
Ou seja, o que antes era um espaço cultural interessante, que iniciou um processo de formação e um público apreciador de um tipo de música popular mais reflexiva e menos mercadológica, agora foi envelopado pela estética cafona deste governo, que promove em demasia shows religiosos na praça S. Salvador (quando o poder público municipal é laico), com o interesse em ser artificial e eleitoralmente popular, esquecendo-se que a diversidade também vota.
Somos vítimas de um pensamento único, anti-científico, anti-crítica, pseudo-religioso que se aproveita do aspecto apaixonado e irracional das religiões para a manutenção do poder.
Além de tudo, há um caráter notadamente personalista na decoração. É possível notar, nos cantos da praça, pacotes gigantes de presente com uma também gigante rosa vermelha por cima, como se fosse uma alegoria de carnaval, porém fazendo referência direta à prefeita. A praça é do povo, e não da prefeita.
Peço desculpas por não ter ilustrado esse texto com fotos, mas, pra falar a verdade, não quis me dar ao trabalho de fotografar algo tão feio.
Feliz natal a todos, e vamos ver no que dá 2010.

2 comentários:

[margarida] disse...

É triste ver a que ponto chegou o mau gosto e/ou a cara de pau dos governantes locais.

Ainda bem que [como você disse] não é pra senmpre. E que bom que você não fotografou!!
;)

Bjs

Ana Paula Motta disse...

Escreveu o texto que eu pensei em escrever, porém mais bem escrito.É mesmo uma lástima a decoração, nunca vi algo mais ridículo