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segunda-feira, 7 de setembro de 2009

E se você fosse rico?

Folheando uma revista publicada em Campos nos primeiros anos do século XX, chamada Campos Illustrada, deparei-me com a interessante enquete:

"Si eu fosse rico...
Quem ha que não queira ser rico, fabulosamente rico? Sabendo disso andámos ha dias a perguntar a algumas pessoas muito conhecidas em Campos - que fariam si fossem ricas?
Responderam-nos:
O poeta Manuel Mól - 'Si eu fosse rico daria um passeio de bonde'.
O sr. Pedro Fonseca - 'Si eu fosse rico mandaria construir por minha conta um prado duas vezes maior que o do Becco, para correrem cavallos tambem duas vezes maiores.'
O sr. Julio Nogueira - Si eu fosse rico faria... Muitas cousas.'
O sr. Freire Cabral - 'Si eu fosse rico - talvez me casasse.'
O sr. Alfredo Teixeira Pinto - 'Si eu fosse rico botaria tudo fóra.'
O sr. Leoncio Barreto - "Si eu fosse rico mandaria construir uma torre muito alta para subir nella e de lá de cima cuspir na humanidade."
O sr. Teixeira Duarte - 'Si eu fosse rico... até nem sei o que faria.'
O sr. Antonio Povoa - 'Si eu fosse rico... quem disse que eu continuaria como tabellião?'
O sr. Vicente Nogueira - 'Si eu fosse rico mandaria arrasar a cidade para plantar canna.'"

Essas eram as pessoas, muitas delas já ricas, que viviam em Campos no início do século passado. Antes do "politicamente correto" as pessoas eram mais sinceras, não? Vejam o sarcasmo de Manoel Moll, a desilusão de Leoncio Barreto, e o conservadorismo agrarista de Vicente Nogueira...

E hoje, a quem enviaríamos esta enquete?

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Mercearia Campista

Ia me esquecendo.
Gostei muito de ter visto na TV (Mult TV, canal 8 da ViaCabo, em Campos) o programa "Mercearia Campista", apresentado por Chico de Aguiar, Vítor Menezes, Ricardo André e Gustavo Oviedo.

Uma das propostas de tema para um próximo programa foi levantada por Gustavo Oviedo e por Chico. A questão do canal Campos-Macaé. Acho que será um tema interessante para o programa, quem sabe até recebendo convidados para o debate, exibindo também imagens históricas do canal e seu entorno, bem como fotografias atuais sobre como está o canal em Quissamã e Macaé.
Gostaria de ressaltar a relação de identidade que há entre uma cidade e seus cidadãos. Acho uma grande perda a destruição de qualquer elemento constituinte da memória de um lugar.
É claro que o canal é horrível. Aos olhos de um estrangeiro, que não necessariamente tenha esse laço afetivo entre cidadão-cidade, o canal Campos-Macaé não represente mesmo algo importante, não constitui uma grande obra arquitetônica. No entanto, não devemos ter esse olhar instantâneo, pautado sempre no belo pelo belo ou pela funcionalidade.
Acho realmente problemática a região do "Curral das Éguas". Talvez o seu maior problema não seja o canal em si, ou mesmo o mercado municipal, mas sim a apropriação do espaço. Aquela região toda já tem cultural e historicamente um determinado rótulo, a começar da rodoviária. Em todas as cidades os terminais rodoviários encravados no centro da cidade constituem áreas problemáticas. Cem metros adiante, margeando o canal, temos o mercado municipal. O problema não é o mercado, que aliás, encontra-se soterrado, de um lado por uma estrutura metálica horrenda, que foi funcional e eleitoralmente interessante no final da década de 1980, e de outro, pelo camelódromo.
O mercado municipal é lindo, as árvores ao fundo são lindas, o jardim de Allah, era lindo, e o canal também poderia ser, se não fosse aquela aglomeração toda.
Um bom exemplo a ser seguido é o do município de Quissamã, que valoriza a cultura, a história do município, e reforça os laços de identidade entre o cidadão e a cidade.
A preservação do patrimônio histórico de uma cidade insere o indivíduo como parte de sua história, e este sentimento de pertencimento reforça a cidadania. O reforço da cidadania, do amor pela cidade, consequentemente cria indivíduos mais críticos e conscientes da boa governança, defensores dos princípios democráticos, da participação ativa como cidadãos.
Este espírito está se perdendo, infelizmente, entre os campistas. Como disse o Chico de Aguiar no programa, referindo-se ao canal Campos-Macaé, "eu não estou mais disposto a perder mais nada não, Campos já perdeu muito". E é verdade. Muitos, até conscientes de tudo isso, acabam desanimando e se entregando, depois de tantas derrotas, e talvez seja essa a intenção daqueles que sucessivamente vêm (ah... não tem mais acento...) desgovernando a cidade.
No entanto, temos lá os senhores da Mercearia Campista, temos cá esta rede de blogs que, mesmo incomodando àqueles que estão a serviço do desgoverno, vem cumprindo um papel fundamental.
Vamos em frente.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Abandono

Para quê tem servido isso hoje?

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Prata da casa: Lançamento!!!

O professor Márcio Soares convida a todos para o lançamento de seu mais recente trabalho, publicado pela Apicuri, chamado "A Remissão do Cativeiro: A dádiva da alforria e o governo dos escravos nos Campos dos Goitacases".
O lançamento acontecerá no dia 25 de junho na Academia Campista de Letras.




O professor Márcio Soares, graduado em história pela Faculdade de Filosofia de Campos (1989), é professor adjunto da Universidade Federal do Tocantins, possui mestrado em História pela Universidade Federal Fluminense (1999) e doutorado em História pela Universidade Federal Fluminense (2006). Tem seus estudos voltados para o tema da escravidão africana, sobretudo em Campos dos Goytacazes.

domingo, 7 de junho de 2009

A Lira

O Urgente, um dos blogs mais importantes de Campos, tem levantado a discussão acerca do canal Campos-Macaé. Em outras ocasiões o blog tem revelado sua preocupação com a preservação do patrimônico cultural e histórico da cidade.
Tenho muito interesse pela história de Campos dos Goytacazes, sobretudo por seu apogeu, no final do Império e início da República. Destacava-se não só na província fluminense mas em todo o país, por sua produção açucareira e tradição comercial. A presença da livraria* mais antiga do país e de um dos jornais** (a classificação exata é controversa) mais antigos em circulação, e a incursão pelos seus arquivos, despertam grande fascínio, ao imaginar aqueles homens de terno e chapéu, exibindo seus fartos bigodes e barbas bem cuidados, bem como suas bengalas... mulheres exuberantes em seus imensos vestidos, frequentando as sessões do teatro Trianon ou do São Salvador... as apresentações das diversas bandas musicais... imaginem, a primeira cidade a ter luz elétrica nesta parte do continente! Deve ter havido interessante vida noturna!!! Bondes elétricos cortando as hoje tão conhecidas ruas de seu centro e adjacências...
Circulam por aí punhados de fotografias deste passado glorioso, que chegam a me causar estranhamento, por não acreditar que de fato se trata da mesma cidade. Fico imaginando a qualidade dos homens públicos daquele período (obviamente sem a ingenuidade cega de acreditar que eram homens generosos preocupados com o bem-estar social), a noção de que se tratava de uma grande cidade, ao ponto de pleitearem a sede administrativa do governo fluminense, em momentos históricos distintos.

Observando as fotografias deste passado, dei pra tentar refazê-las, do mesmo ângulo. Sábado e domingo pela manhã são ótimas oportunidades de passear pela cidade e tentar absorver as súplicas de socorro deste passado que grita aos ouvidos mais sensíveis: "Não me esqueça!"
Minha maior tristeza é ver o prédio da Lira de Apolo em ruínas. Não dá pra escondê-lo ali, aberto à principal praça da cidade. No seu interior é possível ver renitente um quadro de giz com a agenda dos ensaios da histórica banda musical. Não há mais prédio, mas há banda. O que leva esses homens a manter esta tradição? Eu que sou músico sei a resposta: mais que tradição, o prazer de tocar.
Posto aqui uma foto atual, mostrando "a sobra [deste] futuro" sobre a "sombra do passado", desta grande cidade.

*Ao Livro Verde

** O Monitor Campista

















Um detalhe que só reparei agora: na primeira foto, a mais antiga, aparece um mastro de madeira exposto na sacada central do prédio. Este mastro, ou um toco podre que restou dele, ainda está lá, e pode ser visto na segunda foto.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Tradição

Por volta das 13h de hoje, liceístas organizavam manifestação em frente a escola (exatamente onde se encontra a pequena carroagem na foto ao lado, do séc. XIX). Motivo? O uniforme. Nos anos 90 houve algo parecido. O governo do Estado decidiu padronizar os uniformes da rede estadual, independente das escolas. A uniformização do uniforme, por mais redundante que pareça, de certa forma contribuiu para a perda da identidade de algumas escolas, e para a rotulação do aluno, que deixava de ser desta ou daquela escola, e passaria a ser identificado como aluno da rede pública de ensino.
Na época os estudantes do Liceu tinham acabado de alcançar uma conquista: o uniforme branco com calça jeans para o 3º. ano do Ensino Médio, que tinha um quê de hierárquico, tudo bem, mas também o significado do fechamento de um ciclo, um sabor de despedida, e um estímulo para os demais, que permaneceram com seus cinzas tradicionais que, independente de serem bonitos ou não, eram defendidos com orgulho por seus alunos, pois afirmava a identidade da escola centenária.
Nos anos 90 nós vencemos, mantivemos o nosso uniforme, assim como o IEPAM e o Nilo Peçanha, muito por conta da articulação de seus grêmios estudantis.

Hoje, mais uma vez a questão retorna. Um novo uniforme foi imposto à toda a rede, e mais uma vez os estudantes protestaram. Estenderam os uniformes no chão, em frente à escola, e gritavam: "Liceu é tradição, não é humilhação". Eu passava pela frente da escola e inevitavelmente, como liceísta, me misturei aos estudantes. Muito válida a sua manifestação, sua luta pela manutenção da identidade.
Porém, esse discurso da tradição contra a humilhação me soou um tanto perigosa: qual o significado desta tradição? Se for a idéia de identidade, tudo bem; mas se for a manutenção de um caráter elitista de segregação, onde o Liceu não pode se comparar às outras escolas da rede, acho complicado.
Espero que a luta se estenda para as outras escolas, e que seja possível acabar com a uniformização do uniforme. Que este seja um símbolo de distinção e identidade para todas as escolas, e não um rótulo para a rede pública de ensino.

sábado, 1 de novembro de 2008